Lexicografia
25 julho, 2005 Categoria: Cultura & estrutura 1 Comentário »
Fui indagado hoje, numa palestra sobre etimologia, sobre “pra que servem os lexicógrafos”.
Pois bem: quem esteve na universidade pela manhã come agora o restante do prato.
A prática lexicográfica é muito antiga e os primeiros testemunhos que se têm são glossários e nomenclaturas. Levando em conta como primeiro dicionário da história uma pequena lasca de pedra, com uma dúzia de vocábulos de um idioma obscuro, encontrada na antiga Mesopotâmia, então essa compulsão humana de listar palavras tem pelo menos 2.700 anos, ou 27 séculos.
De lá para cá, a evolução foi tremenda.
Até o século XIV, por exemplo, as palavras eram organizadas não em ordem alfabética, mas em grupos de significados parecidos.
Esse tipo de dicionário sobreviveu aos nossos dias. São os tesauros, dicionários de sinônimos ou de idéias correlatas. Ninguém, porém, traçou tão bem quanto Noah Webster (1758-1843), famoso lexicógrafo americano, quais devem ser os critérios fundamentais para separar as palavras dicionarizáveis das que não merecem essa glória.
Todavia os primeiros dicionários que buscam uma relativa exaustividade são posteriores à invenção da imprensa.
Como as ciências necessitam acompanhar os avanços históricos, a Lexicologia e a Lexicografia andam a passos rápidos com o progresso. Os autores dos dicionários ficam, portanto, tributários das coerções do uso vivo das palavras em meio às comunidades lingüísticas. Há verdadeiras revoluções no sentido de acompanhar, sempre de perto, as formas que vão sendo consagradas pelo uso e, ainda, acompanhar os avanços tecnológicos do século XXI.

Observa-se que a tarefa Lexicográfica não é de pouca ambição. É trabalho plácido, neutro em sua aparência de celeiro do idioma, com a matéria-prima disposta em ordem alfabética. Mas, em verdade, os dicionários escondem rivalidades terríveis. Os mais mansos chegam ao mundo com o objetivo de descrever como o idioma está sendo usado pelas pessoas em determinados períodos da História. Outros, como o Aurélio e o Houaiss, querem ser autoridades. São dicionários brigões, normativos, querem dar receita do bom uso da língua. Seus autores esperam que as pessoas recorram a eles em caso de dúvidas cruéis de linguagem. Dar a palavra final, ser a obra de maior credibilidade, é o grande prêmio. Poucos chegam lá. Já é um grande passo para um dicionário quando o nome do autor se confunde com a própria obra.
O primeiro dicionário da história ocidental a obter tal honraria foi uma lista de poucos milhares de palavras latinas compiladas pelo intelectual italiano Ambrogio Calepino em 1502.
Seu Dictionarum fez enorme sucesso numa Europa sedenta de conhecimento que mal se erguia das sombras da Idade Média. Historiadores encontram freqüentes referências à obra. Uma delas é a prova de que o dicionário fazia parte do cotidiano da elite letrada – menos de 1% da população européia de então. Um nobre inglês, morto em Lancashire em 1568, registrou em seu testamento que deixava como herança, entre outros objetos de valor, seu “calepino”. Mais tarde, outros dicionários atingiram essa singularidade. O Covarrubias, na Espanha, e o Caldas Aulete, em Portugal. O Johnson e o Webster nos países de língua inglesa. O Aurélio no Brasil.
Desde sua primeira edição, há 26 anos, o livrão do professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira vendeu um total de 45 milhões de cópias em suas três versões. Talvez não deixe de ser sinônimo de dicionário. Mas vem dividindo o título com o Houaiss, autor do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que levou uma década para ficar pronto e é resultado do trabalho de 140 especialistas brasileiros, portugueses, angolanos e timorenses. A obra é a materialização do sonho de Antônio Houaiss, considerado o maior filólogo do século XX em língua portuguesa, morto em 1999, pouco antes de ver o livro terminado. Diplomata de carreira, Houaiss foi ministro, presidente da Academia Brasileira de Letras e refinado gastrônomo. Mas nada absorveu mais sua existência do que a obsessão de ver publicado o mais completo dicionário da língua portuguesa.
Houaiss conseguiu realizar o sonho. Em números absolutos, o dicionário é imbatível. A versão em cd-rom, com um total de 228.500 verbetes, tem 68.500 a mais que o Aurélio e 28.500 a mais que o Michaelis, o outro competidor. Em Portugal, o dicionário da Academia de Ciências tem 120.000 verbetes. Só o tempo dirá se o Houaiss será aceito pelo grande público como a fonte primordial da língua viva falada hoje no Brasil – o olimpo que todo grande dicionário almeja. Impresso na Itália, com uma montagem de 3.008 páginas, em um único volume de 3,8 quilos, o dicionário Houaiss oferece um delicioso passeio pela linhagem revolucionária das palavras. Enfim os vocábulos, como as pessoas, podem ser promovidos ou rebaixados. Lexicógrafos também….
Tão pouco para ser feliz
12 julho, 2005 Categoria: Blah blah blah 2 Comentários »
Demócrito, um maravilhoso filósofo grego do século V antes de Cristo, dizia sempre para seus discípulos: ‘‘Ocupe-se de pouco para ser feliz’’ e ressaltava que ‘‘muitos afazeres e pressões sobrecarregam o espírito e nos enchem de sombra, levando a pensamentos que escondem as idéias de luz’’. Como tantos outros homens sábios daquela época, cujas propostas e conceitos atravessaram os séculos e chegaram até aqui, respeitava demais a palavra euthymia, que significa tanto o apascentamento da alma para se alcançar a felicidade, quanto o cuidado em não se acumular de necessidades que no fundo não são necessárias…
Nesta primeira semana de julho, ao voltar de uma longa viagem, lia Calígula, o novo livro de Alan Massie, onde essa euthymia é sempre citada por Sêneca, e lembrei-me da frase do filósofo. Com certeza, por estar reavaliando conceitos, analisando valores e tentando re-significar alguns símbolos do meu cotidiano, neste momento. Meu Deus, como estamos sobrecarregados de compromissos, deveres, de uma lista interminável de ‘‘não posso deixar de’’, mesmo num período de férias. Que, aliás, as pessoas não respeitam. E a perturbação monumental dos e-mails! Que surgem às centenas na telinha, numa diabólica seqüência interminável? Mesmo não sendo daqueles fanáticos que abrem mensagens pela madrugada adentro ou sequer desligam o computador, como não se agitar com isso? E a obrigação de estarmos magros, ‘‘saudáveis’’, fazer exercício físico e manter uma alimentação regular? Quanto às tarefas idiotas, é melhor nem dizer nada: são tão inúteis e nos dedicamos a elas, com afinco. Assim, os hiatos de insônia no meio da noite, a ansiedade, a tensão e os resultados no físico, apesar de tantos cuidados e assepsias.
Repensar essa milenar euthymia pode ser fundamental em muitas das pessoas que dedicam a este espaço diário alguma atenção. Sim, porque os que entraram de cabeça e alma na roda da loucura nem vão ter tempo de ler isto aqui. Estão correndo atrás dos compromissos determinados pela mídia, em matar um leão por dia, em não deixar de estar em cima de tudo, de triplicar o rol de suas abundantes necessidades. Até porque a descoberta de que a gente precisa de muito, muito pouco para ser feliz é um fantasma monumental.
