O taxista era boa praça. Tinha umas idéias bastante Von Mises e Rothbard, se ele conhecesse um deles. Não fez faculdade, mas sabe que o Lula é um despreparado para qualquer cargo público. Enquanto íamos curtindo o engarrafamento ele me contou essa história com a filha que me soou como uma espécie de pequena revelação, indicando que não estamos lutando contra o vento.

A filha, que está na sexta série, chegou para ele e disse: “Papai, me ajuda na lição?”. Ele foi ajudá-la e a a tarefa era saber como o acarajé, o tutu à mineira e a feijoada foram criadas. Ele então ajuda a filha na tarefa e vinte dias depois o pai pergunta: “E aí filha… O que você está aprendendo na escola?”. “Ah, pai, estou aprendendo tutu à mineira, feijoada e acarajé”, responde ela candidamente. “Mas, poxa, filha, você não estava aprendendo isso faz duas semanas?”, o pai já meio espantado e então a filha responde: “É, pai, mas acontece que a professora está nos explicando que o acarajé, o tutu e a feijoada são os pratos que o brasileiro deveria comer sempre porque foram criados pelos verdadeiros brasileiros, que foram os negros e os índios”. O motorista quase teve um ataque de apoplexia: “Mas como? E fatos, datas, quem foi quem? Você não vai aprender isso?”. E a filha respondeu: “Ah, pai, acho que não. A professora disse que isso não era importante”.

Não deve ser mesmo.
Agora os fatos históricos desse chão tupiniquim se tornaram irrelevantes – importante mesmo é saber que feijoada, acarajé e tutu são os pratos que deveríamos comer para todo o sempre porque uns pretos e índios resolveram criar todas aquelas gororobas (que, por sinal, eu adoro).
O motorista me perguntou: “Porra, e agora? O que eu vou falar para a minha filha quando for comer um espaguetti da mama? Ela já está dizendo que não vai comer mais macarrão e polpetta porque não foram os brasileiros que inventaram”.
O motorista mal sabe, mas a filhinha dele foi vítima de mais uma competente discípula de Antonio Gramsci. Acontece que ele descobriu que está sendo enganado. E ele não fez a PUC, nem cursou a ESPM. Contudo, é mais inteligente que muitos dos que perambularam por esses campi. Na verdade, considero-o como no rol dos homens mais sábios de nossa época. É verdade, não estou sendo sarcástico : para chegar a tal verdade é preciso coragem e sabedoria – duas coisas em falta na elite intelectual e econômica brasileira.

A ditadura do Legal!

26 julho, 2006    Categoria: Tolerância zero   4 Comentários »  

In the cafeteria I listen too closely to the noise.
Friends are crashing, friends are banging,
friends are bagging, friends are hanging;
salaries suck; relationships suck;
weekends are insane; women are girls, girls are rock stars.
“I cranked,” a rock star says to her table. They nod.
A guy they know is going through something intense.
He needs his friends. He needs his friends to say:
“Dude, you’re the shit.”

Vivemos hoje na tirania do legal.
Na escassez de vocabulário tudo é legal, tudo é bacana, tudo é da hora. Na falta de opinião sapeca lá que achou bem legal que tá resolvido. Vai ficar show.

Você mostra um quadro de Van Gogh para alguém e a pessoa comenta: “Legal!”
Escreve um soneto alexandrino, rimado, com aliterações e ecos internos, para uma moça bonitinha e a infeliz exclama:
“Show-de-bola!”
Pergunta para alguém o que ele acha do Hugo Chaves e a resposta é: “Um cara bacana!”

Ultimamente, eu até achava que estava sendo meio ranzinza mesmo mas parece que não há com que se preocupar, afinal, todo mundo se expressa através do legal e tudo pode ser compreendido de forma bacana. Só penso que uma coisa é ter opinião e falar gíria uma vez ou outra; outra coisa é não ter vocabulário e rechear o papo com termos medíocres repetitivos. Mas dizem que, como tudo é relativo, não há motivo para alarme.
Afinal tudo está legal, vai ficando show e termina de forma bacana.

Don’t talk. Just cease.

26 julho, 2006    Categoria: Blah blah blah   5 Comentários »  

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