Num país como o Brasil não é tão difícil arranjar conteúdo para escrever. Sobretudo numa atmosfera de imprensa que sugere sempre os mesmos caminhos de audiência: reclamar, apontar falhas, veicular tragédias e misérias mil e blah blah blah. O problema é que o burburinho político e cultural dá muito assunto e pouca profundidade, se a gente bobear, fica só falando dos Lulas e sanguessugas e a vida vai passando. É justamente isso que eles querem: que a gente ache que tudo se resume à política.
Há muita coisa boa pra se destacar na vida e no mundo, minha gente. Além do quê, a esquerda no Brasil já não é.

Aliás, por que a pseudo-esquerda (ou os sinistros) é sempre de esquerda? Não importa quem está no poder, são de esquerda. O mote é ser a favor do contra. O Zé Dirceu e o Serra foram batalhadores da ex-UNE, e dos bons. São de esquerda? E o Genoíno? Guerrilheiro, guerrilheiro! Salve o Araguaia, companheiros! O que dizer do ex-operário barbudo que reivindicava greve até por falta de copo nos bebedouros? (Tá vendo, olha aí. Já deu dois parágrafos de política…)
Uma das maiores falácias da esquerda brasileira é insistir na tal da distribuição de renda. Já tentei, em vão, discutir esse assunto em fóruns com membros da dita facção, que hoje deve abarcar algo como 99% da população economicamente ativa por estas paragens. Numa dessas argumentava por exemplo (baseado em leituras, claro. Não há cientista político entre os Jungianos e a memória aqui não é fotográfica) que, no século XIX, a quase totalidade dos adolescentes trabalhava em fábricas; hoje, nove entre 10 vão à escola. No início do século seguinte, o americano médio precisava trabalhar duas horas para ganhar o preço de uma galinha; hoje, 20 minutos. E assim vai.

Com dados como esses, que evidenciam ganhos concretos de qualidade de vida para todos ao mesmo tempo em que se diz ter aumentado a concentração de renda, fica clara como nunca a intenção de complicar o debate público por parte de certos intelectuais. Sejamos claros, ora pois. Se acreditarmos nessa mentira, estaremos matando a galinha dos ovos de ouro.

Piada pronta

23 setembro, 2006    Categoria: Blah blah blah   4 Comentários »  

A cajuína, cristalina, em Teresina...


Ingredientes do bolo doido:
1 jornal sensacionalista do interior do Piauí
1 país politicamente desacreditado
2 astrólogas de criatividade exacerbada (redundância)
1 casa da mãe joana

via jacaré banguela

Ói, primavera já é vem.

22 setembro, 2006    Categoria: Blah blah blah   6 Comentários »  

Tulipas

A rosa que se esconde
no cabelo mais bonito
é um grito, quase um mito.
Uma prova de amor…

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes
— e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares
— e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos
— e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Cecília Meireles