Trabalhador ou empregado? A meritocracia no século XXI
24 outubro, 2006 Categoria: Blah blah blah 8 Comentários »
Tenho refletido um pouco sobre o mercado de trabalho, empresas, relações entre funcionários e essas coisas todas que envolvem as relações trabalhistas (apesar de que, esse papo de Trabalhistas não tá pegando muito bem). Achei demais interessante um artigo antiguinho de Anthony de Jasay na Econlib.
Se os trabalhadores tivessem consciência do peso que representam para um empresário que gostaria de abrir um negócio, jamais apoiariam uma lei de redução da jornada de trabalho ou sequer achariam vantajoso uma lei para fixar a jornada de trabalho. E penso em quão longe os tupiniquins estão desse raciocínio.
Aqui por essas bandas, pensa-se que empresário é tudo ladrão e que tem mesmo é que sofrer pagando altos impostos e benefícios salariais e podendo ir à falência facilmente a qualquer hora. E todos estão a séculos de perceber os motivos de tanta dificuldade de arranjar emprego. Aliás, tenho dito já há alguns anos que ‘emprego’ é uma instituição em vias de extinção. Como define muitíssimo bem o Bob Fifer em seu livro Double Your Profits: In Six Months or Less ['Dobre seus lucros', pela Ediouro] as empresas devem cada vez mais adotar a meritocracia, onde as recompensas são distribuídas à base de desempenho, e não de antigüidade, “simpatia” ou qualquer outro interesse. Numa meritocracia, a metade inferior reclama. No sistema de “antigüidade ou em qualquer outro, são os melhores empregados que se acham no direito de reclamar.
Mas, logicamente, é mais fácil aderir ao maniqueísmo do empresário mal e do trabalhador bonzinho, do Estado bonzinho que interfere em prol dos direitos do trabalhador e dos rótulos, bandeiras e lutas e blah blah blah.
Enquanto isso, empobrecem todos.
‘O Concreto Já Rachou’ – 20 anos
16 outubro, 2006 Categoria: Blah blah blah 19 Comentários »
No último mês, abrindo as lembranças dos dez anos da saída de cena do Renato Russo, publiquei aqui no blog um texto sobre os punks de Brasília [que nos trouxeram o bom rock nacional, graças a Deus] e o show na ABO, entre outras peripécias da turma da Colina.
Em comentário naquele post sobre o show da ABO, Philippe Seabra [vocal/guitarra da Plebe] lembrou que o show dos Plebeus daquela noite também foi muito bom e aproveitou pra publicar o texto na sessão de Notícias da Unidade Plebe Rude Oficial.
Mas isso foram os anos 80 e lá se vão vinte anos. Pois há vinte anos a Plebe Rude nos brindava [seus fãs igualmente punks] com o disco “O Concreto Já Rachou” e consolidava no restante do país o sucesso e a qualidade flagrantes aos que já acompanhavam a cena musical brasiliense.
O lançamento oficial do disco ocorreu em dois shows realizados no Rio de Janeiro, na casa noturna Noites Cariocas, nos dias 14 e 15 de fevereiro de 1986. Já de cara deu pra ver que o primeiro disco da Plebe se transformaria num dos mais importantes discos do rock nacional de todos os tempos.
Hoje a Plebe continua Rude e já nos deixa de sobreaviso, lançando seu novo CD ‘R ao Contrário’, que contém 11 faixas inéditas, mais a gravação da música ‘Voto em Branco’, composta em 1980 e executada no memorável show de Patos de Minas.
E foram justamente dessas lembranças dos bons tempos punks da cena brasiliense e da saudade de outras bandas igualmente boas como por exemplo, a Escola de Escândalo, que resolvi publicar o texto que você lê agora aqui abaixo.
Escola de Escândalo
16 outubro, 2006 Categoria: Cultura & estrutura 7 Comentários »
Disco perdido
EMI – 1986
Produção: Philippe Seabra
Uma das grandes bandas do rock brasileiro na década de 80 jamais alcançou o sucesso merecido, numa daquelas grandes injustiças da história, ninguém sabe se por ironia ou por uma afronta do destino. A Escola de Escândalo, formada em 1983, é uma das grandes referências brasilienses no cenário do rock brasileiro, embora jamais tenha alcançado a projeção que suas bandas-irmãs tiveram – Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude.
O grupo, cuja “formação clássica” era Bernardo Mueller (voz), Geraldo “Geruza” Ribeiro (baixo), Luiz “Fejão” Eduardo (guitarra) e Eduardo “Balé” Raggi (bateria), foi um dos pioneiros na cena oitentista, fazendo um crossover maravilhoso entre o heavy metal e o punk – se é que isso existe. A banda nunca gostou de rótulos e se destacava pela brilhante cozinha de Geruza e Balé, a guitarra fenomenal de Fejão e a elegância da voz de Bernardo, que também era o responsável pelas letras da banda, outro ponto forte da Escola.
Passaram pela banda outros músicos locais, como Marielle Loyola, que dividia os vocais com Bernardo e, posteriormente, integrou outras duas importantes bandas brasilienses – Arte no Escuro e Volkana. Outros dois bateristas também fizeram parte da Escola, antes de Balé assumir as baquetas: Alessandro e Manuel Antônio Fragoso, o Totoni, que hoje trabalha como ator no Rio de Janeiro.
Antes de formarem o grupo, Bernardo e Geruza integravam, ao lado de Alessandro (bateria) e Jeová Stemller (guitarra) o grupo XXX, que liderou o movimento punk brasiliense ao lado da Plebe Rude no início dos anos 80 e realizou – junto com Legião Urbana, Capital Inicial, Banda 69 e a própria Plebe - a série de shows antológicos na Temporada do Teatro da ABO, em abril de 1983, já comentados aqui no blog.
Da banda XXX, que tinha o som mais pesado entre os seus grupos contemporâneos e que mais se aproximava ao punk feito em São Paulo e no Rio, a Escola de Escândalo herdou grande parte do seu repertório inicial, como Caneta Esferográfica e Menino Prodígio. A antiga banda de Bernardo e Geruza resolveu encerrar suas atividades quando o guitarrista Jeová saiu. Antes disso, o grupo conseguiu participar de um programa na televisão local, chamado Brasília Urgente.
Bernardo ainda atuou no lendário filme Ascensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus, dirigido por Gutje Woorthman, baterista da Plebe Rude, e que ganhou o prêmio de um Festival de Cinema Super 8 de Brasília. Neste média metragem de aproximadamente 40 minutos, o jovem Bernardo, irmão de André [Diablo] X, da Plebe, protagonizava o vilão que roubava os plebeus no final do filme, que tinha a narração de Renato Russo. O líder da Legião Urbana também trabalhou como “ator” fazendo o papel de empresário inescrupuloso da Plebe.
Foi durante as apresentações no Teatro da ABO que Bernardo e Geruza conheceram Fejão, um guitarrista muito conceituado em Brasília e que tocava na banda Nirvana, liderada por Tadeu, futuro vocalista do grupo Beta Pictoris. Juntos, os três – mais o baterista Alessandro – começaram a ensaiar, trabalhando numa alquimia que refletia os gostos musicais de cada, algo que parecia impossível de ser tentado. As influências eram díspares: Van Halen, Led Zeppelin, Metallica, Echo and The Bunnymen, The Beat, Police, Talking Heads e Xtc, além de bandas de ska.
Naquele mesmo ano, o grupo saiu de Brasília para fazer suas primeiras apresentações no Rio de Janeiro, que há pouco tempo já tinha descoberto o rock brasiliense, pelas mãos de Herbert Vianna e Os Paralamas do Sucesso. A Escola fez o circuito das danceterias e casas de rock – Circo Voador, Noites Cariocas, Parque Lage, Mamão com Açúcar. Ali, trataram logo de encaminhar demos para as rádios Fluminense e Estácio, mostrando Luzes, que depois veio a constar do disco Rumores, lançado pelo Sebo do Disco em 1985. A música passou a liderar a parada de sucessos da maldita Flu durante um bom tempo.
Logo depois, o grupo entrou no pau-de-sebo Rumores, uma produção independente lançado pelo Sebo do Disco, ao lado das bandas Finis Africae, Detrito Federal e Elite Sofisticada. As duas músicas apresentadas neste disco da Escola eram Complexos e Luzes, que tiveram boa execução em Brasília e em algumas rádios do Rio. O disco foi gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte, e hoje é peça de colecionador. A vocalista Marielle deixa o grupo em 1986. O sucesso Luzes foi relembrado pela Plebe Rude e consta do disco ao vivo lançado pela banda em 2000, “Enquanto a Trégua Não Vem”.
O namoro com uma gravadora não demorou e pelo menos duas ofereceram assinatura de contrato e a gravação de um disco. A banda, prontamente, recusou. Os quatro optaram por aguardar um momento mais oportuno para gravar seu disco.
Os amigos da Plebe e da Legião, juntamente com Herbert Vianna, pressionam a EMI-Odeon para um contrato com a Escola. A gravadora se dispõe a colocar os quatro no Estúdio 3 e Philippe Seabra produz as gravações para o disco, que seria lançado no formato de Mini-LP, tal qual a Plebe e a paulistana Zero haviam feito. As cinco canções registradas no que é chamado o “disco perdido” do Escola, são: Atrás das Palavras, Deuses e Demônios, O Grande Vazio, Pérolas Sem Valor e Só Mais Uma Canção. Infelizmente, o disco acabou não rolando.
Pouco tempo depois disso, a banda encerrou suas atividades, para desespero dos fãs e falta de percepção das gravadoras, que ajudaram a acabar com um dos mais dignos e inteligentes grupos de rock de todos os tempos. Bernardo Mueller, que virou economista, é hoje professor da Universidade de Brasília. Geruza tornou-se produtor de estúdio, tendo trabalhado durante muitos anos no famoso Artimanha, de propriedade do guitarrista Toninho Maia. Balé fez as malas, partiu para os Estados Unidos, onde trabalhou em artes gráficas e voltou para Brasília, onde montou a banda Resistores, com trabalhos gravados no estúdio Daybreak de Philippe Seabra e produção também do Rude Plebeu.
Já o guitarrista Fejão abraçou novo trabalho, mais calcado no heavy metal – com elementos do pós-punk -, liderando a banda Dungeon, que chegou a lançar um disco pelo selo Rock It! [projeto tocado por Dado Villa-Lobos e André X]. Morreu em 1995, em Brasília, sem ver a obra do Escola reconhecida no mercado fonográfico.
Leia também o texto no Radicaos de Olimpio Cruz Neto.
