Catedral de Sevilha – Um vale invertido
27 março, 2006 Categoria: Blah blah blah 1 Comentário »

Escrevendo o post sobre os livros esquecidos na Biblioteca Mário de Andrade me vieram lembranças da grandiosíssima Catedral de Sevilha e sua não menos portentosa biblioteca. Aquele monumento gótico de dimensões estupendas, desde sua origem, atrai gente de todos os ventos em busca de rotas perdidas e escrituras sagradas. Algumas vezes, os textos meditados ali oferecem sonhos, ambições, amor, confidências, luz. Diria que é um curral onde bezerros perdidos trotam entre as pastagens literárias daquela arquitetura oca.
Ali navegam por entre teias de aranha medievais os humanautas buscando uma voz, uma esperança para o pecado, segredos, compreensão. Alguns funcionários da biblioteca trabalham; outros sonham, ainda há os que estão prisioneiros. Por vezes não resistem à tentação de abandonar os livros e, clandestinamente, ler os sonhos dos que por ali passam admirando aquele vale invertido magistral.
Como um coiote na colina, os visitantes observam tudo aquilo com olhos fixos, cuidadosos. Muitos ali encontram as respostas perdidas de seu coração ou o porquê das brechas de uma sociedade incomprensível. Pode-se muitas vezes, observar pessoas desenhando o passado ou traçando roteiros furtivos entre as possibilidades dos títulos de um livro mas nunca sem dar-se conta do magnetismo do lugar que move seus próprios sonhos, compelindo-os a navegar num espaço inacessível: Os céus de Deus.
Percebe-se que há ali naqueles pátios várias estrelas escondidas entre os livros, empregados, leitores, vigilantes, diretores. Muitos sonhadores. Sei que ali existem fogos secretos e informações contidas.
Conheci naqueles pátios um poeta, que havia viajado até Sevilha a fim de pesquisar algo de construções góticas e acabou conhecendo uma bibliotecária andaluza que por ali vivia. Dizia que “os olhos são a comporta da alma” e que esses o haviam levado ao encontro da bela…
Não parece ser a coisa típica a se buscar em uma biblioteca, onde cada leitor é um número, uma credencial, um usuário de direitos, um roedor dos serviços. Mas a bibliotecária também respirava aquele ar antigo e misterioso e da sua torre de mármore roubou o pensamento, a atenção e o coração do poeta. 
É assim, a catedral de Sevilha. Tão imponente que às vezes proibe qualquer leitura, sequestra os sonhos e se apropria das intenções alheias.Entra o visitante caminhando entre estátuas e elevações, cercado de águas em alguns espaços e, por instantes no interior daquele vale invertido, o silêncio torna-se obrigatório.
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2 abril, 2006 - 7:57 pm
Querido Edu,
Obrigada pela visita. Adorei as palavras de Vinícius… mas acho que as os homens também, precisam ser protegidos… De minha parte, faço o que posso para proteger algum…
Quanto à Catedral de Sevilha, saiba que a Andaluzia é um dos meus sonhos de consumo. A próxima viagem, depois de Machu Picchu em Outubro.
Um abraço